
Se como diz Raquel de Queiroz, escrever é um ato doloroso, deixa transparecer esta dor o autor criado por Clarice Lispector para narrar a história de Macabeia. São tantos os devaneios, desvios do assunto em si para falar desse processo de escrita, que a história da menina em si fica pequena e enxuta. Assim, evitando seu contato direto, deixa clara a gravidade de ser escritor: falar de, ou melhor, escrever sobre Macabeia é experimentar a dor de, sendo outro, se pensar ela.
Vejo uma semelhança entre o processo de escrita do texto “A hora da Estrela” e o meu processo de leitura do mesmo. Assim como o autor, eu também já sabia sobre Macabeia, sua insignificância, ignorância, seu sofrimento natural, pois para quem nasce sofrendo, não tendo experiência de outro estado, não tem condições de ter consciência desse sofrimento. Talvez à essa imagem se deva o fato de eu ter evitado ao máximo ler o livro: a minha memória da personagem.
O que me fez repentinamente ter a disposição para lê-lo foi, já no início, perceber que o autor, em sua relutância, acaba (ou inicia) levando o leitor à reflexões que abordam indiretamente questões existenciais importantíssimas, que não haviam no filme por mim assistido.
O início do livro é espetacular: por onde começar? Sempre há um fato anterior, como escolher o fato a partir do qual começar a narrativa? “Como começar pelo início, se as coisas acontecem antes de acontecer?” (Lispector, 1998, p11)
Pois é, a história, tanto para o autor como para mim já havia acontecido. O que valeu foi o antes, foi a pré-história, só que essa foi escrita!