sexta-feira, 23 de maio de 2008

Uma leitura concreta


Demorei muito a pegar o livro "A hora da estrela". Há muito tempo vi o filme e confesso que não fiquei muito bem depois de assistí-lo. Ainda hoje me lembro da cara da personagem no rosto da atriz. Como descrever o desprezo e a dor que me causaram?

A prova do mal foi a minha relutância em começar a lê-lo. Peguei o livro emprestado na biblioteca Clarice Lispector, na Lapa. Fiz uma ficha especialmente para poder tê-lo em mãos. De fato, fiquei com ele algumas semanas, sem ao menos abrir para ler seu início, ou mesmo para folhear o material. Depois de várias renovações e depois de vários trabalhos de faculdade entregues, resolvi levá-lo para a cama e dar-lhe uma chance.

Fiquei impressionada com a leitura! É uma espécie de adivinhação. Quase uma leitura em voz alta! Mas o cheiro de papel velho empoeirado ainda me afastava. Então, no dia seguinte, resolvi dar uma passadinha na livraria, para ver se achava o livro. E... achei! "É o último!", "Quanto custa?", "Dezoito reais.", "Vou levar!"

A capa é bem diferente da capa anterior. A edição mais compacta, o tamanho menor da letra diminuindo o número de páginas fez a paginação não combinar na comparação e busca do lugar em que havia parado a leitura. Mas o texto sendo exatamente o mesmo, fez com que pudesse achar o trecho em que estava facilmente.

Pude então devolver o livro na biblioteca, e mergulhar no texto puro de Clarice, sem cenas, cortes, imagens, apenas palavras. A princípio foi realmente confortante saber que o autor(a) também relutou muito até conseguir encarar a figura de Macabéia. Quem, me pergunto, sabendo já de ante-mão, não relutaria a reviver tal angústia?

Comecei a ler o livro no dia 15 de maio e terminei as últimas 5 páginas ontem, na expectativa de conseguir ir à faculdade para a roda de letura, mas não consegui. Clarice tem razão, ou o autor de Macabéia: precisamos morrer um pouco de vez em quando. Esta foi a minha semana de morte: dor no corpo, ausência de forças, febre. Palavras, não são apenas sons ao vento, são ao ouvido que as compreende. Em mim, penso, ficaram presas, como um corpo estranho ao meu, com o qual ele luta.

5 comentários:

Ana Carolina Guimarães Abrão Scaff disse...

Oi Patty, no dia da roda fiquei curiosa pra ver o filme... parece que é apenas um recorte do livro né? "A história da Macabéia". Mas vou assistir e depois te conto. Que foto é essa?
Engraçado, imagino a Maca bem diferente... :)
beijinho
Carol

Márcia Fortunato disse...

Patrícia, observe que você fala muito sobre a história da Macabéia, e não do autor, como se só a primeira fosse o objeto da novela. Ao contrário, o tema dessa obra é um escritor e seus problemas para escrever... Como você interpreta essa leitura que você e outros leitores fazem do livro?
Mudando de assunto, veja no meu blog que comecei a postar as perguntas dos seminários. Avise as colegas por favor. Veja que fiz pequenas alterações na formulação das perguntas. Por isso é importante que todos os grupos me enviem as perguntas e que vocês respondam as que coloco em meu blog, porque estarão revistas por mim.
Obrigada, beijo!
Márcia.

Márcia Fortunato disse...

Remendando meu comentário, você não fala muito da história de Macabéia, mas se refere a ela como se fosse a história do livro, como a maioria dos leitores. Difícil encontrar o leitor que mencione a história do autor. Apenas quis chamar atenção para esse fato. Sei que o centro do seu comentário foi seu processo, não o livro em si...
Beijos, Márcia.

Ana Carolina Guimarães Abrão Scaff disse...

Patty, agora entendo a foto! bacana, engraçado com nunca a imaginaria assim.
É difícil entrar no jogo do autor não? Suas reflexões sobre a escrita, a construção do personagem... a dificuldade de escrever sem envolvimento.
beijo
Carol

Ana Carolina Guimarães Abrão Scaff disse...

Ah, o mais importante: o blog da Márcia já está certinho de novo!
beijo